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Relato da Michele Pires | Nascimento do Francisco

Nascimento do Chico e da Michele, mãe informada, mãe empoderada

Começo dizendo que eu não pari. Há pouco mais de um ano e meio eu vivi momentos intensos com a chegada do Francisco. Eu estava ali, coberta de choro e de um questionamento: “por que comigo”?

Vivia eu em uma linha tênue entre instinto e razão. Com seis anos de casada, me perguntava por que eu não pensava em ter um filho. Não é que eu não quisesse ser mãe, mas não pensava no assunto como faziam as outras mulheres. A razão respondia que não era necessário, pois estava tudo tão tranquilo e um bebê talvez fosse mudar muito a vida com a qual já estava acostumada. O fato é que chegou a vez do instinto! A vida não para. Tinha chegado minha vez de fazer um ser humano inédito, desde o rascunho até o concreto. Sim, era algo grandioso demais para um casal que sequer tinha contato com bebês! Mas assumimos os riscos de mudar e nos preparamos para a jornada!

Em janeiro de 2013, procurei um médico pela Internet para fazer exames de rotina e ver se estava tudo ok para tentar engravidar! Na busca pelo médico, digitei no Google “ginecologista em Maringá, parto normal”. Nunca na minha vida ia querer uma cesárea. Nunca havia feito cirurgia alguma, muito menos iria querer um procedimento desses para algo que traz vida, não é uma doença engravidar.

Fui lá no tal médico que encontrei pela Internet. Pelo que li, era super a favor! Exames feitos, estava tudo certo! Sem pressa! Decidimos ir com calma! Viria o bebê a seu tempo, de acordo com o destino.

Para nossa surpresa, engravidamos dois meses depois. Eu disse ao Pedro, meu marido, que achava que já estava grávida e ele sugeriu um exame de farmácia. Fizemos e as duas linhas rosa apareceram. “Só pode ser mentira”, pensei. Nunca que isso vai ser confiável. Fizemos mais dois!

Apesar dos planos, não acreditava que já havíamos conseguido. Confesso, senti as pernas tremerem muito. De emoção? Também! Junto a isso, senti medo. Medo porque eu não tinha a mínima noção de como cuidar de um bebê e medo de precisar de uma cesárea. Medo de não dar conta. Senti alegria também! Eu e o Pedro havíamos decidido ter filho há tão pouco tempo e já havíamos conseguido. Após seis anos de casados, tivemos o desejo de termos um novo ser na família! Sem saber se seria menino ou menina, sempre brincávamos que seria Chicão! E foi assim, era um menino, o nosso Francisco!

Fui ao médico, que também desconfiou do resultado e pediu um ultra. Mas estava muito no começo da gestação e não apareceu nada. Foi aí que o médico finalmente teve a ideia de pedir um exame de sangue.

Com esse exame, estava confirmado.

Liguei para minha grande amiga/irmã Valéria (hoje comadre) para dar a notícia. Nos alegramos juntas e sempre conversávamos sobre a gestação. Ela vivia me dizendo que já era a hora de procurar uma doula para me acompanhar.

Cada vez estava mais confiante no parto. Eu me alimentava bem, praticava yoga, andava de bicicleta, e o mais importante: acreditava no corpo, na fisiologia do parto e no poder das mulheres, no sagrado que habita seus ventres. A gestação estava tranquila, serena e muito cuidada.

Nada de enjoos, pressão alta, diabetes. Tudo na paz! Saí do emprego com poucas semanas de gestação para curtir a beleza do momento e me preparar para a chegada de quem nem conhecia, mas já amava.

Se eu tinha um medo na vida, esse medo era de cirurgias e coisas que envolvessem hospitais e remédios. O cheiro do hospital me dá náuseas, o ambiente não me agrada. Mas estava eu ali, grávida. Descartamos o parto domiciliar, precisaria ir ao hospital. Pois bem, que isso fosse feito da melhor forma possível. Queria o parto natural humanizado, por ser o melhor para o bebê e para mim, por ser assim que os bebês nascem lindamente desde que o mundo é mundo. Seguimos o conselho da Valéria e procuramos a doula Renata, no Maternati. Eu e o Pedro participamos da nossa primeira roda de conversa do Maternati. A barriga nem se notava ainda, enquanto outras com mesma idade gestacional já estavam mais barrigudinhas!

Ao chegar lá, percebi que estava em casa. O grupo tinha os mesmos pensamentos que eu. Todas desejavam o curso natural do nascimento! Era a mesma vibração! Descobri ali um tesouro escondido em uma cidade tão cesarista e desinformada.

Cada vez estava mais animada com o parto, descobrindo mitos e aprendendo sobre os inúmeros benefícios. Tinha sim medo da dor, do desconhecido, mas ansiava pelo momento de sentir meu filho chegando e o poder de parir e sentir todas as transformações que isso traria.

Após esse primeiro contato com o Maternati, decidi que queria uma doula pra chamar de minha. Via tanto amor e carinho com que elas realizavam os encontros e informavam as famílias. Queria aquilo para mim. Eu queria um parto humanizado, com trilha sonora, com meia luz, com chuveiro, com contração, podendo me alimentar, ser respeitada e sentir tudo o que fosse preciso.

No início, a Re (é assim que a chamo, pois doula às vezes vira da família) me avisou sobre meu médico. Ele seria um cesarista em pele de humanizado. Então, vamos conhecer outro! Por que não?

Não me lembro bem, mas por volta de 28 semanas troquei de médico.

Eu e o Pedro, sempre presente em tudo, fomos conhecer o Dr Edson Rudey. De cara eu gostei! Levei uma listinha de perguntas que foram respondidas sem aqueles “se der, se estiver tudo ok”. Sua primeira pergunta para nós foi: será parto domiciliar ou hospitalar? Tudo dito com normalidade, como deve ser!

As semanas foram passando e surgiram uma mulher empoderada e um homem empoderado! Nós falávamos sobre partos em casa, era o assunto do momento. Pedro, que antes achava que parto e cesárea não tinham diferença, passou a ser um ativista! Lia tudo, todos os livros comigo! De repente, meu marido me dava relatos de parto para ler. Acompanhava-me no yoga, participou de curso de shantala e ainda informava a família sobre as maravilhas da humanização. Não perdia um encontro do grupo de gestantes. Senti-me respeitada! Meu marido acredita no protagonismo feminino no parto e estaria ao meu lado em tudo! Estávamos preparados, era só o Francisco chegar.

Por volta de 32 semanas, os exames de ultrassom detectaram uma restrição de crescimento. Francisco não pesava o normal para um bebê daquela semana, mas cerca de duas semanas a menos. A posição do doutor foi a de não nos preocupar, disse para monitorarmos. Chico poderia ser apenas um bebê pequeno, sem maiores problemas.

As 39 semanas chegaram e eu estava quase tranquila, não fosse a tal restrição de crescimento. Esperei cada virada de lua, procurei sentir cada chute na barriga como se fosse o último lá dentro! Seguia confiante na natureza, que não me deixaria na mão.

40 semanas e mais doppler e cardiotoco. Tudo ok. Mas a restrição estava lá. Ao contrário de muitos médicos, Dr Edson Rudey disse que levaríamos a gestação adiante, apenas monitorando. Eu me sentia mais tranquila em ouvir isso. Muitos eram os casos de médicos que resolviam fazer uma cesárea precoce quando os bebês tinham restrição. Muitos eram os relatos de bebês que paravam na UTI por conta dessa prematuridade forçada.

Eu cantava para o Francisco, cantava “Sabemos parir”, de Rosa Zaragoza. A sós, eu e Francisco com essa canção, sentada ao sol, nua! Era quase um ritual. Eram as últimas semanas gestando! Era toda a minha força e vontade de parir! Eu estava entregue nesses momentos. Procurava ficar quieta e me concentrar para ver se sentia alguma contração. Mas eu não sentia nada. Nenhuma. Por vezes desejei sentir a bolsa estourar e ligar para o Pedro contando, como nos relatos que li. Outras vezes sonhava com um bebê empelicado.
Dia 12 de Dezembro de 2013. 41 semanas cravadas. De manhã, conversei com o Francisco e expliquei que ele poderia nascer, eu estava esperando. De alguma forma, imaginei que seria o dia de ver seu rostinho. Cantei de manhã, chamei meu bebê! Meditei, desejei parir!
Almoçamos no restaurante e partimos para mais um doppler. Eu fiquei tensa, pois a Dra. que fez o exame demorou mais que o normal. Fez e refez o exame. Os gráficos que representavam o fluxo de sangue estavam estranhos, mas eu não entendia. Ao terminar o exame, ela disse que seria melhor levar os resultados no mesmo dia para o Dr Edson Rudey. Tive medo, muito medo. Procurei manter a calma, talvez fosse apenas uma medida de segurança.

Chegamos ao consultório e a secretária estava com o Dr Edson Rudey ao telefone. Assim que ela desligou, me disse: “já sabemos do seu exame. A Dra. ligou para o Dr. Edson e ele está te esperando no pronto-atendimento do Santa Rita para conversar”.
De repente eu estava vivendo uma movimentação tensa, uma energia estranha. Eu já sabia que meu plano não era tão certo, tão desenhado como o meu desejo. Fomos encontrar com o Dr Edson Rudey. Ao entrar na sala, ele me pareceu desconcertado e triste.
Ali eu chorei, chorei muito. Pedi desculpas e disse que poderia me falar o que estava acontecendo.

O quadro era o seguinte: Francisco estava com alterações no doppler que indicavam risco de centralização da artéria cerebral. O risco era de a placenta não conseguir mais enviar oxigênio para todos os órgãos e só privilegiar os órgãos principais. Era uma corrida contra o relógio.
O Dr. explicou que se eu entrasse logo em trabalho de parto, teríamos uma chance de dar tudo certo como eu queria.
Sugeriu, então, o exame de toque. Caso o Francisco estivesse baixo, poderíamos induzir. Eu aceitei. Mas o Francisco estava alto, bem alto. Eu não tinha perdido o tampão, não senti UMA contração. Não tínhamos um sinal. A indução com o bebê alto poderia não funcionar. O Dr. Edson, com toda a sua humanidade, me indicou a cesárea. Ele disse que não poderia me obrigar, mas estava com muito medo do quadro. Pediu uma resposta o quanto antes. Eu fui para casa sem chão. Liguei para a doula aos prantos e para a minha mãe. Eu não ia parir.

Já em casa, ligamos para o Dr. Edson e ele me disse que já era para eu correr para a maternidade. Faríamos a cirurgia naquele dia. Era de emergência.
Eu só sabia chorar. Perguntava-me “por quê” ?? Tantas mulheres escolhem a cesárea. Eu queria parir. Por que a natureza não funcionou? O que eu havia feito de errado?
Foi tudo rápido, intenso. Quando percebi, estava no carro indo para a maternidade, deixando a trilha sonora de parto para trás com todos os sonhos de uma história que não aconteceria.
A doula foi para acompanhar o procedimento e segurar minha mão antes da cirurgia.
O Pedro também estava assustado, mas procurava não demonstrar. Nos momentos que antecederam a cirurgia eu desejei entrar milagrosamente em trabalho de parto. Eu estava com medo da anestesia, temi pela vida do Francisco. O Dr. me garantiu que até o momento, apesar do quadro preocupante, o Francisco estava bem. Pensei em fugir dali e refazer o exame que já tinha sido feito e refeito no dia. Não dava mais.

Fui preparada para entrar no centro cirúrgico. Estava frio lá dentro. As enfermeiras conversavam amenidades. Eu me sentei-me à mesa de cirurgia e pediram para me curvar para receber a anestesia. Eu me curvei e esse curvar significou muito para mim. Era o parto que eu havia perdido. Logo chegaram o Pedro, a doula Renata e o Dr. Edson Rudey.

Onde estava a beleza do nascer que eu tanto desejei ao meu filho, depois de tanto ler LeBoyer? Onde estava a poesia do parto? A cesárea era um nascimento sem música, eu concluí.
A beleza estava ali, ao meu lado. A doula segurou minha mão com todo seu carinho. Do outro lado, prestes a ser pai, também com medo, estava meu esposo! Com amor, segurou minha outra mão.

No comando, não estava eu, como queria, mas um médico que me respeitou como pôde, não me amarrou na maca, explicava o que estava acontecendo durante a cirurgia, que não roubou meu parto. Um médico que entendeu a minha dor. Estava no comando um médico que, no dia seguinte, na visita me disse: “às vezes a gente não dorme quando essas coisas acontecem. Tento pensar se havia outra saída, mas não houve”. Obrigada por isso!

Durante o procedimento, sentia o bebê sendo empurrado e um pouco de falta de ar por conta das manobras. Às 21 horas e 38 minutos daquele dia conturbado, Francisco nasceu! Não chorou. Eu o imaginei nascendo quietinho e vindo para o meu colo ganhar peito. Mas em uma cesárea de emergência, não chorar não é considerado bom. A pediatra de plantão o levou para aspirar e eu vi meu filho rapidamente, de relance. Lembro-me de ter perguntado se estava tudo bem. Tranquilizaram-me dizendo que sim. Pedimos que a Re acompanhasse o Francisco no procedimento, eu acho. Esse momento é meio confuso na minha memória.

Eu ouvi meu bebê chorar pela primeira vez. Chorou alto e forte. Apesar de não querer que fosse assim, me senti aliviada por ouvir seu chorinho! A beleza de seu nascimento estava em ter o pai cortando seu cordão, como queríamos, ao parar de pulsar! Conseguimos que não ministrassem o colírio também. Hoje me sinto feliz por termos conseguido essas pequenas coisas, grandes para nós!

A beleza estava em poder tentar amamentá-lo na primeira hora, ali mesmo no centro cirúrgico, por insistência do médico que sabia o quão importante e valioso isso era para mim. As enfermeiras que trouxeram o Francisco já enrolado no paninho, após os procedimentos, me mostraram o bebê e já estavam o levando para o berçário quando o doutor me perguntou se eu queria amamentar ali. Eu me emocionei, chorei discretamente ao receber o Chico no colo, no peito. O doutor disse para a berçarista: “Deixe ele aqui com a mãe dele mais um pouco, eu cuido”. Nunca vou me esquecer disso. Palavras tão simples, mas era tudo que eu queria: ver meu filho, segurar e amamentar! Logo o levaram para o berçário, pois o centro cirúrgico estava muito frio. Mas fico feliz, pois após da observação padrão, fui para o quarto e Francisco veio também para o alojamento conjunto.
A beleza desse nascimento estava em uma mãe que nascia aprendendo a lidar com a surpresa, com o inesperado, com a frustração. Não é castigo, mas o que eu mais temia aconteceu. Eu precisei lidar com isso. A poesia e o calor no centro cirúrgico estava em poder contar com pessoas maravilhosas e amadas. A beleza do nascimento do Francisco foi mais o caminho que a chegada. Conheci mães incríveis com as quais convivo até hoje. Ganhei uma doula que mora no meu coração. Admiro o ser humano que é o Dr Edson Rudey.
A beleza do nascimento estava ali, no pai que abraçou o filho, que deu banho e trocou, pois eu não estava em condições.

A beleza maior estava em ver meu filho, nos meus braços, lindo, cheirando a cria, sendo amamentado e aconchegado!

Ali mesmo, no centro cirúrgico, eu o amei mais que tudo nessa vida. Amei com minha alma, com meu corpo. Eu prometi a mim mesma fazer valer a natureza e amamentá-lo com prazer, seja qual fosse a dor ou dificuldade. Aliás eu desejei tanto sentir contração que não me importei com as dores de amamentar. Muitas vezes eu sorri na dor, precisava daquilo.
Por dias eu chorei, não aceitei. Mas o Francisco precisava de mim entregue, precisava de colo e peito. Hoje, um ano e meio depois, eu sinto gratidão pelo caminho, pelas pessoas, pelo meu filho e meu marido que foi muito sensível. Gratidão pela minha mãe, que viveu comigo minha dor.

Gratidão ao divino supremo por me deixar ser mãe e cuidar do Francisco com apego e carinho. Hoje eu me desculpo porque fraquejei, por não aceitar. Hoje eu quero me livrar de não ter aceitado com alegria aquela via de nascimento, que não era o ideal, mas o real.
Hoje eu convivo com a pequena cicatriz física e com a psicológica. Hoje eu aceito, agradeço e me alegro. Hoje eu sufoquei meu ego, agradeço a lição de que a natureza é perfeita também por ser falível às vezes. Chico não chegou pela via natural, mas continuo acreditando. Continuo afirmando para as mulheres que o parto é o melhor caminho.

Hoje consegui escrever, sem pesar, sem pensar no “E SE” tivesse sido. Não foi. Não dessa vez. Não há como mudar os fatos. Mas repensei, me reescrevi, me editei. Chico veio de cesárea em coração preparado para o parto, fruto da mente de uma mãe informada e empoderada. Isso não muda. O caminho feliz que se segue vem da busca!

Essa é a nossa história, nosso nascimento: o meu, o do Francisco e do Pedro.
Essa é a história que teve mais poesia no percurso do que na chegada. Posto que o caminho é mais longo que a chegada, me sinto feliz e sigo caminhando. Valeu buscar e me tornar consciente! Valeu a pena sonhar, querer!

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