Relato de Parto da Juliana Tomita | VBAC | Nascimento do Heitor

Eu não queria passar por este mundo sem saber o que é parir. Sim, queria saber como era a tal dor que tanto falam. Durante a gestação do meu primeiro filho, sentia meu corpo se preparando para isso e passei a achar a cesárea eletiva um verdadeiro desperdício da engenharia de Deus.

Mas, à época, eu não tinha ideia da existência de parto normal humanizado. Na cidade em que eu morava haviam dois hospitais, apenas um realizava partos normais. Ouvi histórias assustadoras e mal sucedidas de partos normais lá realizados. Episiotomia e “sorinho” eram a regra, pernas amarradas, fórceps, nada de acompanhante etc. Assim, o medo e a falta de apoio fizeram eu optar pela cesárea na última hora.

Ao chegar ao centro cirúrgico meu médico sequer me cumprimentou. O meu bebê nasceu muito bem, mesmo assim eu o vi apenas por uma fração de segundos. Minhas mãos permaneceram amarradas, obviamente não pude pegá-lo e também não senti o seu cheirinho, porque meu nariz entupiu por alguma reação do procedimento. A amamentação foi difícil e logo deram complemento para meu bebê, mesmo contra minha vontade. Enfim, para mim aquilo não estava certo, um momento tão especial não poderia ter sido tratado deste jeito, fiquei muito fragilizada e sofri, porque sentia que não tinha feito o melhor para mim e para meu bebê.

Quando meu pequeno estava com 1 ano e 3 meses engravidei novamente. Eu tinha mais uma chance para realizar meu sonho e escrever uma nova história. Estava morando em outra cidade e não conhecia nenhum médico. Começou então a minha busca por algum médico que fizesse parto normal (VBAC).

Ouvi de tudo. A maioria já dizia ser impossível devido à cesárea recente. Até que encontrei um médico que realizava partos normais e, de acordo com a secretária dele, ele era bem humanizado porque não marcava cesárea para poder viajar (como se bastasse isso). Passei a fazer meu pré-natal com ele e, apesar de não ser muito claro quanto ao parto, pelo menos dizia que o intervalo de 24 meses seria seguro para o VBAC. Mas, quando eu já estava de 30 semanas de gestação, perguntei novamente sobre o parto. Ele respondeu que meu bebê estava sentado (sim, mas ficou na posição cefálica na semana seguinte), que era muito grande e eu era muito pequena (tenho 1,57 e sempre fui magra) e que não via porque eu sofrer. Oi? Uma voz interior me disse: CORRE! E eu corri, corri tanto que esqueci meu guarda-chuva na clínica. Nunca voltei pra pegar.

Nessa mesma semana, nasceu em Maringá o bebê de um conhecido meu por meio de um parto normal humanizado. O parto foi natural, com o papai sempre junto e não foi no centro cirúrgico. Fiquei maravilhada com aquilo, porque pensei que isso não existia por aqui, já estava desiludida. Eu não acreditava que havia um médico realmente humanizado, mas existia e ele tinha que ser meu!

Conheci a Renata do Maternati, que passaria a ser minha doula. Eu estava com 32 semanas de gestação na minha primeira consulta com o Dr. Edson Rudey. Ele me alertou do risco de rotura uterina, um risco específico e pequeno comparado aos múltiplos riscos de uma cesárea. Porém, para maior segurança, fez a ressalva de que o ideal seria que o parto fosse o mais natural possível, sem indução e sem analgesia. Ótimo, era assim que eu queria. Enquanto na primeira gestação eu acreditava ser desumano parto normal sem analgesia (anestesia), agora sabia que a analgesia poderia desencadear intervenções desnecessárias e que a há outros meios de lidar com a dor. Enfim, o parto normal ainda era mais seguro e plenamente possível, bastava eu querer. Meu coração se encheu de alegria e esperanças. Dispus-me a viajar 60 km para consultas e levando ainda meu filho mais novo, porque não tinha com quem deixar. Mas tudo valeu a pena.

Vale destacar que, além do meu marido, poucos acreditavam que eu seria capaz de parir, porque, além de ser pequena, de quadril pequeno, sou considerada “mole”. Sim, sou daquelas que quase chora para tomar uma injeção. Mas e daí? Ter medo de agulhas e optar pela melhor forma de trazer seu filho ao mundo são coisas bem diferentes.

Quando eu estava de 38 semanas de gestação, perdi o meu tampão mucoso. Fiquei feliz da vida. As contrações de treinamento ficaram intensas e frequentes. Um belo dia as tais contrações foram tomando ritmo, com intervalos regulares ao longo de todo o dia. Quando elas ficaram de 10 e 10 minutos, corremos para Maringá. Alarme falso. Realmente, as contrações incomodavam, mas não eram doloridas. Morria de medo de entrar em trabalho de parto e não saber (santa inocência).

Depois de mais um alarme falso, meu marido falou que só iríamos novamente para Maringá quando eu estivesse berrando. Dito e feito…

No dia 25 de abril de 2015, um Sábado, acordei sentido contrações bem doloridas. Fui fazer acupuntura porque queria entrar em trabalho de parto logo (nas últimas semanas minha pressão estava ligeiramente alta, o que não era muito seguro para mim e meu bebê). Recebi uma mensagem da minha mãe em que ela dizia que haveria mudança de lua naquela noite e me desejou boa sorte (ela não sabia que já estava com dores).

Na hora do almoço as contrações já arrancavam algumas lágrimas. Estavam de 20 em 20 minutos mais ou menos (mesmo tendo baixado um aplicativo, não consegui anotar a frequência). Fomos almoçar num restaurante, eu me abaixando feito doida e as funcionárias do restaurante também ficaram doidas quando eu disse que ainda iria para Maringá. Pegamos a estrada às 18hs. Já não dava mais para esperar. A viagem foi aos berros, achei extremamente desconfortável ter contrações em um carro em movimento. O melhor foi meu filho imitando a mamãe: aiai aiai. Só ele para me fazer rir nessa situação. Fomos direto para o Maternati e me acalmei quase que instantaneamente assim que encontrei minha doula e sua calma. Foi ela quem me levou para a maternidade Santa Rita, enquanto meu marido levava nosso filho para ficar com a minha mãe, que também viajou para nosso encontro.

Eram 20hs. A médica plantonista me examinou. Estava com apenas 2 cm de dilatação, mas, de acordo com ela, já dava para sentir a cabeça do bebê. Por isso, já fizemos a internação. Dr. Edson Rudey chegou logo depois e resolveu me examinar também. Realmente, 2 cm de dilatação, mas bebê alto ainda. Nem era para internar de acordo com ele. Bom, já estava internada e as contrações eram bem eficazes (leia-se doloridas), três em dez minutos, o jeito era esperar.

Eu ficava o tempo inteiro com o olho fechado, já estava perdendo a noção do tempo (todos horários que relato aqui eu só sei porque perguntei depois para meu marido). A cada contração eu abraçava muito meu marido e gritava, enquanto a doula, com sua santa mão, massageava minhas costas. Com certeza a presença da doula foi essencial, pois ela me botava de volta nos trilhos quando eu achava que não ia aguentar, me lembrando a forma correta de vocalizar (ahhhh e não aiiii), me acalmando e me dando confiança, com a certeza de que estava tudo certo.

Às 3h30min da madrugada a doula sugeriu que andássemos pelo hospital, mas só se o trabalho de parto estivesse progredindo, porque eu precisaria ter forças para os momentos finais e, dependendo da situação, valeria mais um descanso mesmo. Meu médico então me examinou, 3 cm de dilatação apenas. A orientação deles foi: descansa, porque vai demorar. Eu até achei bom, mas também fiquei pensando como alguém poderia descansar com tanta dor. Esse foi o único momento em que pensei em pedir uma anestesia. Mas não falei nada e essa ideia logo passou.

Vejam só a importância da escolha do médico. Qualquer outro certamente já teria dito que eu não tenho dilatação e faria uma cesárea. Mas o meu médico foi perfeito em sua atuação, praticamente não interferiu em nada, sempre monitorando os batimentos do Heitor sem que eu nem percebesse. E as poucas vezes em que eu percebi sua presença (já que eu ficava de olhos fechados), ele estava sempre com um semblante calmo e simpático.

Bom, resolvi seguir a orientação e “descansar”. Parei de gritar. Deixei a doula e o meu marido descansarem e fiquei curtindo minha dor, sentindo cada onda, apenas respirando fundo. Entreguei-me à dor, parei de tentar qualquer atitude para aliviá-la, apenas respirava fundo. Tive uma conversa interna com meu filho em que disse a ele “vem meu filho, mamãe está pronta”. Para minha surpresa, a dor melhorou muito, foi ficando gostosa, consegui dormir nos intervalos. Passou-se uma hora e às 4h30min, no final de uma contração, ouvi um “ploc” e muita água escorrendo. A bolsa estourou. Dr. Edson pediu para fazer novo exame de toque e para alegria de todos a resposta foi: 8 cm!

Fui para o chuveiro para aliviar as contrações que pareciam não ter mais intervalos e logo meu corpo começou a fazer força. O expulsivo estava próximo.

Nesse momento, já achei que não doía mais tanto. Sentia que eu havia perdido qualquer controle sobre meu corpo, mas, ao mesmo tempo, estava tudo sob controle, porque nada mais dependia de minha ação consciente. Do mesmo modo que eu não preciso pensar para que meu coração bata, meu corpo passou a fazer tudo sozinho.

Em nenhum momento em pensei que não conseguiria. Eu estava muito confiante e agora tinha certeza que daria tudo certo.

Fui para banqueta, queria parir de cócoras. O dr. sentou na minha frente e apenas esperou. Ele perguntou se eu queria mudar de posição, eu perguntei qual, e ele respondeu que poderia ser qualquer uma, a que eu quisesse. Eu não respondi (mas achava que tinha respondido). Não dava mais tempo.

A força vinha, parecia puxar o bebê para baixo e eu para cima. Berrava muito a cada puxo, era um grito mais de força do que de dor, uma coisa do fundo da alma. Senti uma ardência, fiquei muito feliz, sabia que ele estava ali.

Esperei meu corpo agir. Respirei. Até que o Dr. Edson avisou que na próxima ele nascia. Esperei novamente a força vir. Todos esperaram. Foi então que a força veio mais forte e…

NASCEU! Foram as palavras do meu marido, que chorou feito um bebê. Eu então olhei para baixo e vi aquele nenenzão, todo rosinha e ouvi o choro, delícia de choro. O Dr. entregou ele para mim, a coisa mais linda do mundo. O Heitor ergueu a cabeça e olhou no fundo dos meus olhos. Amor avassalador. Coloquei-o no meu peito e ele se acalmou. Enquanto isso, papai, quase se afogando em lágrimas, cortou o cordão assim que ele parou de pulsar.

Sim, foi o parto dos meus sonhos, em que minhas vontades e meu bebê foram respeitados. Uma sensação de vitória imensa me invadiu assim que peguei meu filho nos braços, momento em que toda a dor acabou e eu me senti poderosíssima, pronta para qualquer desafio e disposta a cuidar do meu bebê.

Dia 26/04, às 6:30 da manhã, após quase 12 horas de trabalho de parto, nasceu o Heitor.

Nasceu de um parto natural humanizado, sem nenhum tipo de intervenção, com muito respeito e amor! Veio direto para meus braços e assim permaneceu por um bom tempo…

Nasceu de um parto normal após uma cesárea (VBAC).

Nasceu grande (3.575 kg), para uma mãe pequena.

Nasceu suavemente, sem pressa…

Houve dor, mas não sofrimento…

Preciso agradecer três pessoas sem as quais isto tudo não teria ocorrido. Meu médico, Edson Rudey, um profissional raro, que felizmente eu encontrei a tempo! Minha doula, que com sua mera presença faz toda a diferença na vida de muitas mulheres e seus bebês. Serei eternamente grata a esses dois profissionais que hoje moram no meu coração. Por fim, meu marido, Romulo Tomits, que sempre acreditou que eu seria capaz.

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One comment on “Relato de Parto da Juliana Tomita | VBAC | Nascimento do Heitor

  1. Parabéns pela determinação. Parabéns tb a esse médico tão sábio, e a doula pela serenidade. Parabéns ao papai por te dar forças. Mas principalmente parabéns ao Heitor por vir em boa hora e por ter te feito mais forte.
    Seu depoimento é lindo. Fiquei arrepiada e chorei ao imaginar esse momento tão especial.
    Que Deus abençoe sua família e essa equipem médica tão profissional e humana.

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