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Relato de Parto da Amanda Nonose | VBAC | Nascimento do Autran

Às 7 da manhã acordei de repente.
Senti molhada “lá embaixo”, um jatinho involuntário saindo e molhando calcinha e calça de pijama. Perto das 41 semanas de gestação, levantei brava, pensando era só o que me faltava, fazer xixi nas calças… Fui ao banheiro, fiz xixi e quando me levantei, percebi que o líquido ainda escorria. Era um fiozinho, totalmente fora do meu controle. A bolsa estourou… Será? Mas escorre pouquinho assim? E aquele chuá dos filmes? E cadê que eu não tou me contorcendo de dor? Fiquei um tempo sentada, e decidi tomar um banho morno. Era uma manhã fria de julho e um banho quente vinha a calhar. No banho, deixei a água quente cair e comecei a mentalizar que meu filho ia nascer em algumas horas. Aceitei que o trabalho de parto poderia começar a qualquer momento. Saí do chuveiro, peguei uma toalha de rosto e coloquei ela no estilo “fraldão”, me enrolei num roupão, mandei mensagem para doula e voltei a dormir.

Havia esperado muito por aquele momento.
Dez anos antes havia passado por uma cesariana para que minha filha mais velha nascesse. Na segunda gestação vi a oportunidade de escrever uma nova história, finalmente fazer valer a minha vontade, respeitar a minha natureza e a força do meu corpo. Tinha muitas feridas pra curar.
Durante as primeiras 25 semanas de gestação, levei tudo no fluxo. Fazia as consultas com o primeiro obstetra que o guia médico do meu plano de saúde me pareceu disponível, entrei em contato com uma doula e fui levando. Morava a quase 300km de Maringá e fui postergando a busca pelo obstetra por algum motivo que ainda não consigo entender. Um belo dia, em uma consulta de rotina, o meu então obstetra falou algo que não me agradou muito – que gestações não precisam passar das 40 semanas – e eu acordei pra vida. Ele tinha fama de “parteiro” e pensava assim. Estava na hora de correr dali e por em prática o que planejava há várias semanas.
Passei pelo mesmo que muitas mulheres passam: a busca incessante e frustada de um médico que respeite a sua escolha. Passei por 6 profissionais que me davam um balde de água gelada na cabeça toda vez que respondiam à minha afirmação quero um parto normal: “se estiver tudo bem com você e com o bebê a gente pode tentar”. Pode parecer bobagem, besteira, exagero. Mas o “se” me era um soco no estômago. Era ter a certeza de uma adversidade, de algo ruim, de um impedimento. Eu não queria isso. Queria alguém que acreditasse, que entrasse na viagem comigo. O “se”, pra mim, era a cesariana.
Os 6 profissionais eram indicações da família. Várias mulheres de grupos de parto haviam me indicado um que andava surpreendendo nos relatos. Ainda relutava, também não sei por que. Não sei quem é, não conheço, não conheço direito essas mulheres que falam tão bem dele. Outra imensa bobagem. Quando um grupo de ativistas fala “vai nesse”, apenas vá. Numa última cartada, marquei uma consulta. Entrei no consultório tremendo, pois horas antes, havia saído de uma consulta horrível e muito desestimulante. Me sentei e disparei a falar, você é minha última opção, eu quero um parto normal, blá blá bla. Ele me ouviu e respondeu que sim, tudo bem, parto normal, tranquilo.
Seu nome é Edson Rudey. E ele topou entrar nessa viagem comigo.

Acordei novamente perto das 11 da manhã. Ainda não havia avisado ninguém e vi que a toalha-fraldão estava bem molhada. Pus um absorvente e fui fazer almoço. Estava hospedada na casa dos meus pais em Maringá e eles iriam almoçar em casa. Meu marido e filha mais velha estavam comigo pois era feriado na cidade onde morávamos. Enquanto fazia comida, senti umas leves cólicas sem ritmo que identifiquei como pródromos. Depois do almoço tirei um mega cochilo até as três da tarde. Já havia se passado 8 horas, resolvi avisar o Dr Edson.
Num encaixe entre consultas, ele me avaliou. Nada animador. Colo duro, nada de dilatação, nada de trabalho de parto. Me mostrou artigos que explicavam o porquê de não induzir, me deu sua opinião sobre internação para monitoramento (eu desenvolvi uma hipertensão gestacional) e deixou que eu escolhesse.
Liguei para a doula. Ela também disse que a decisão era minha.
Chorei no carro. Chorei pelo início ser daquela forma. Chorei por me sentir pressionada. Chorei porque sabia que internar fora de trabalho de parto era o prelúdio para um final indesejado.
Algumas horas depois, decidi ir ao hospital. Peguei minha malinha, a malinha do bebê e dei entrada na internação. Às 17h30 estava no quarto, com enfermeiras medindo minha pressão, temperatura, coletando sangue.

Recebi a visita da minha mãe e da minha irmã. Às 22h30 comecei a perceber que as dores passaram a ser ritmadas. Já se passava mais de 15 horas de bolsa rota. Finalmente o trabalho de parto começara. A doula chegou, me trouxe chá da Naolí, conversamos. Me acalmei. Não estava tão terrível assim. As coisas estavam melhorando… Se não tivesse que fazer cardiotoco a cada duas horas, seria melhor ainda.
Passei a noite em trabalho de parto ativo. Cronometrei as contrações com um aplicativo no iPad, Dr Edson me visitou algumas vezes – ele estava de plantão naquela noite, veja só –. Pediu ao enfermeiro que me desse 4 horas de sono pois eu precisava descansar, a manhã vai ser agitada pra ela.
Acordei às 6 da manhã com enfermeira vindo medir pressão e temperatura. Doula chegou com sua malinha, Dr Edson veio me ver novamente. Já eram 24 horas de bolsa rota. A noite inteira em trabalho de parto (porém dormi bem). Me senti tensa. E se não tive progresso? Mas a surpresa foi deliciosa: 7 centímetros!
Estava ali, tão próximo! Dr Edson me alertou que o bebê ainda estava “alto”, mas nada que uns exercícios com a doula não ajudasse.

Fomos então pra bola, senta, rebola, concentra na dor, vocaliza. As dores passaram a se intensificar. Andei pelo hospital, agachava a cada contração. Engraçado como, com o dia, a movimentação e interferência da “vida do hospital” foi muito grande. Toda hora alguém entrava no quarto. Era exame, era médico plantonista, era medir pressão e temperatura, era comida, era tudo. As instituições ainda não sabem lidar com um trabalho de parto.
Passei por uma intercorrência muito surreal, na qual uma ultrassonografia foi feita enquanto eu agonizava de dor. História longa, profissionais que não acreditam na palavra da gestante, situações desconfortáveis e uma interrupção completamente desnecessária.
A intensidade das dores aumentavam conforme a manhã ia passando. Comecei a sentir cheiro do almoço vindo da cozinha. Subia e descia escadas. Chorava de dor, vocalizava. O plantonista fez mais um toque. Nada de diferente: 7cm, colo duro, bebê alto.
Era desesperador. Eu não pensei em desistir, mas temia que aquilo se extendesse demais.

Perto do fim da manhã, a doula sugeriu o chuveiro.
Entrei sozinha e deixei toda a angústia descer pelo ralo junto com a água. Chorei muito, fiquei em todas as posições que meu corpo pedia, me entreguei totalmente. Não tenho noção de quanto tempo fiquei ali. Ensaiei sair algumas vezes, mas alguma coisa me dizia pra ficar. Em algum momento, Dr Edson entrou no quarto e ficou lá me esperando. Quando finalmente saí, pedi para que me avaliasse novamente. Lembro do sorriso no rosto da doula e das palavras dele: “que bruxaria foi essa?”. Pulamos pra 8,5 centímetros.

Então a fase mais “aguda” começou. Não digo só pela dor, mas pela perda de noção de tempo e de alguma consciência. Não consigo lembrar de muita coisa. Me lembro de me apoiar na cama e chorar. Me lembro de sentar na banqueta de parto. Me lembro de sentir o bebê descendo. Me lembro da minha mãe entrando no quarto justo nessa hora. Me lembro de suar mesmo estando em um dia muito frio. Me lembro de fazer muita força. Me lembro da doula me ajudando a recuperar o fôlego de uma forma mais efetiva. Me lembro de por a mão lá embaixo e sentir a cabeça do bebê tão perto da saída. Por que tava demorando assim? Por que não sai logo?
Minha mãe teve que voltar pro trabalho e foi embora. Saí da banqueta e fui procurar outra posição. Deitei na cama, a doula segurou uma perna, uma enfermeira segurou outra e comecei a fazer força. Muita força. A vontade simplesmente vem.
Senti uma ardência grande. Era a cabeça saindo. Estava quase…
Fiz as três maiores forças da minha vida.

E senti ele saindo.
Que sensação…!
Uma coisinha quente escorregando. E, depois dos segundos que parecem uma eternidade, ouvi seu resmungo e ele veio pro meu colo. Quentinho, resmungão, olhinhos cerrados. Nosso primeiro abraço.

Eu pari. Eu consegui.

Autran nasceu depois de uma cesariana, em um parto hospitalar natural humanizado.
Nasceu com 51cm, pesando 3,525kg, completando 40 semanas e 5 dias dentro da barriga.
Nasceu às 13h50, depois de 31 horas de bolsa rota, depois de 16 horas de trabalho de parto.

A jornada pelo seu nascimento foi intensa, cheia de superação de limites (tanto físicos quanto psicológicos). E eu não poderia deixar de mencionar a importância de ter uma equipe que acreditasse em mim, que me olhasse como alguém capaz. Ter a doula do meu lado foi essencial. Ela, a todo momento, simbolizava a materialização da minha vontade de parir. Olhar pra ela durante todo trabalho de parto, especialmente nos momentos turbulentos, foi um alento para o coração.
A paciência e profissionalismo do Dr Edson foi primordial. Em nenhum momento, repito, em nenhum momento, me senti desrespeitada, ou desencorajada, ou desacreditada. Ele sabia o que fazia, sabia o que eu queria e dançou conforme a minha música. Sua conduta se mostrou digna do termo “humanizado”.

Autran nasceu bem, nasceu com respeito.
E tudo isso devo ao apoio do meu marido, das amigas dos grupos de apoio e à equipe.
Eu e Autran agradecemos.

PS – esse “breve” relato é um resumo de um ainda maior (sim, acredite!). a versão completa está aqui, dividido em 6 posts e mais 2 posts pós-relato.